(Pel Caç Nat 60 )
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terça-feira, 1 de julho de 2014

Pel Caç Nat (60) Guiné 68/74 - P155: Porque os outros se mascaram mas tu não. "POEMA" Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Francisco Fanhais Porque. "Youtube"

Sophia de Mello Breyner Andresen

1º Cabo Caçador
Manuel Seleiro
"DFA"
Follow -My Site Luar da Meia-noite

domingo, 27 de abril de 2014

Pel Caç Nat (60) Guiné 68/74 - P153: Por do Sol Ingoré Ano (69.)

Pelotão de Caçadores Nativos (60)

S.Domingos / Ingoré / Suzana

68/74

 

São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto De comando,
S. Leonardo vai sulcando As ondas Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
Miguel Torga

 

1º Cabo Caçador
Manuel Seleiro
Follow - My - Luar da Meia-noite.pt

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P131: Poesia Pequena elegia de setembro

Pequena elegia de setembro Não sei como vieste, mas deve haver um caminho para regressar da morte. Estás sentada no jardim, as mãos no regaço cheias de doçura, os olhos pousados nas últimas rosas dos grandes e calmos dias de setembro. Que música escutas tão atentamente que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar? Ou é dentro de ti que tudo canta ainda? Queria falar contigo, dizer-te apenas que estou aqui, mas tenho medo, medo que toda a música cesse e tu não possas mais olhar as rosas. Medo de quebrar o fio com que teces os dias sem memória. Com que palavras ou beijos ou lágrimas se acordam os mortos sem os ferir, sem os trazer a esta espuma negra onde corpos e corpos se repetem, parcimoniosamente, no meio de sombras? Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura, sentada, olhando as rosas, e tão alheia que nem dás por mim. Eugénio de Andrade

1º Cabo CAÇADOR
Manuel Seleiro
Pelotão de Caçadores Nativos 60
São Domingos/Ingoré/Susana.


68/74

_

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P112: Tarde no Mar

Tarde no mar
 
A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
 
Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!
 
Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
 
E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
 
                      Florbela Espanca
 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P104: Poema

Teus olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
vTeus olhos


Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.


Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!


Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...


Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...



Florbela Espanca

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P96:Vinte cinco de Abril - "SEMPRE"


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Vinte cinco de Abril sempre,

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passsam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade

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1. º Cabo "caçador,"
Manuel Seleiro,
"DFA"

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P:94 (Primavera)






ÉPrimavera meu (Amor!)



É Primavera agora, meu Amor!


O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheio a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, a tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em em meus cabelos...
Parecem um rosal!
Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...

Florbela Espanca

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Manuel Seleiro,
1. ºCabo.
"Caçador"
(Guiné)
68/70
<"DFA"

terça-feira, 8 de março de 2011

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P:93 Dia Internacional da "Mulher"






Rosa Vermelha


As Raízes de Nosso Amor



Amo-te porque tudo em ti me fala de África,
duma forma completa e envolvente.
Negra, tão negramente bela e moça,
todo o teu ser me exprime a terra nossa.

Nos teu olhos eu vejo, como em caleidoscópio,
madrugadas e noites e poentes tropicais,
visão que me inebria como um ópio,
em magia de místicos duendes,
e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...)

A tua voz é, tão perturbadoramente,
a música dolente dos quissanges tangidos
em noite escura e calma,
que vibra nos meus sentidos
e ressoa no fundo da minh'alma.

Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo
gosto do caju, da manga e da goiaba,
- sabor que vai da boca até às vísceras
e nunca mais acaba...

O teu corpo, formoso sem disfarce,
com teu andar desgoso, parece que se agita
tal como se estivesse a requebrar-se
nos ritmos da massemba e da rebita.
E sinto que teu corpo, em lírico alvoroço,
me desperta e me convida
para um batuque só nosso,
batuque da nossa vida.

Assim, onde te encontres (seja onde estivesses,
por toda a parte onde o teu vulto for),
eu te descubro e elejo entre as mulheres,
ó minha negra belamente preta,
ó minha irmã na cor,
e, de braços abertos para o total amplexo,
sem sombra de complexo,
eu grito do mais fundo de minh'alma de poeta:


Geraldo Bessa Victor

Manuel Seleiro,

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 - P85: Presença Africana.

Presença Africana

Presença Africana
E apesar de todo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendêm
nascendo dos abraços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história inconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente ...

Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!

Alda Lara


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P79: Infância








Infância




Eu corria através dos bosques e das florestas

Eu com o ruído vibrante de um bosque desvendado,

Eu via belos pássaros voando pelos campos

E parecia ser levado por seus cantos.





Subitamente, desviei os meus olhos

Para o alto mar e para os grandes celeiros

Cheios da colheita dos bravos camponeses

Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando





Canções tradicionais das selvas africanas

Que lhes lembravam os ódios ardentes

Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou

Fugindo na frente dos leões esfomeados.





Aos saltos, os leões perseguiram a corça

Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.

A desgraçada atingiu a planície

E os dois reis breve a alcançaram.



Antônio Baticã Ferreira

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P77: O Ultimo Adeus Dum Combatente

O Ultimo Adeus Dum Combatente






Naquela tarde em que eu parti e

tu ficaste



sentimos, fundo, os dois a mágoa

da saudade.



Por ver-te as lágrimas sangrarem

de verdade



sofri na alma um amargor quando

choraste.







Ao despedir-me eu trouxe a dor

que tu levaste!



Nem só o teu amor me traz a

felicidade.



Quando parti foi por amar a

Humanidade



Sim! foi por isso que eu parti e

tu ficaste!







Mas se pensares que eu não parti

e a mim te deste



será a dor e a tristeza de

perder-me



unicamente um pesadelo que

tiveste.







Mas se jamais do teu amor posso

esquecer-me



e se fui eu aquele a quem tu mais

quiseste



que eu conserve em ti a esperança

de rever-me!


Vasco Cabral

segunda-feira, 22 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P66: Poesia Agostinho Neto (ANGOLA) ,Sagrada Esperança

Voz do sangue

Palpitam-me

Os sons do batuque

E os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem

Ó dançarino de Chicago

Ó negro servidor do South

Ó negro de África

Negros de todo o mundo

Eu junto ao vosso canto

A minha pobre voz

Os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho

Pelas emaranhadas áfricas

Do nosso Rumo

Eu vos sinto

Negros de todo o mundo

Eu vivo a vossa Dor

Meus irmãos.

Agostinho Neto (Angola), Sagrada Esperança