terça-feira, 6 de abril de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P68: Mais uma saída para o mato








Mensagem do Plácido Teixeira da C. cav 3365 -S. Domingos 71/73:
Com data de 06-04-2010
A viver nos Estados Unidos:
Boston,





""Mais uma saida para o mato""
Mais uma saida para o desconhecido ou incerteza... uma vez mais nao se



sabia o perigo que estava do lado de fora do arame farpado! O azar

que os esperava poderia ate estar eminente. Em qualquer curva, em

qualquer canto . Para os que nao tinham patrulha nesse dia, era como

pais ver os filhos partir!!, Os que ficavam para traz so restava ,

olhar, acenar e desejar muito boa sorte!!
Na nossa mente, havia sempre um pensamento mau e pressentimento de



medo !. O receio de uma inesperada ma noticia era alias sempre de

esperar. As constantes emboscadas e o eminente perigo!
Havia depois geralmente uma pergunta para fazer a quem nos queria e

sabia responder!! Alguem que tinha acesso a informacao e sabia o que

se estava a passar na patrulha......Que tal esta o pelotao? Esta tudo

a correr bem com a patrulha? etc. etc.
Por mim e todos os demais,era uma alegria e descanso, ver finalmente

regrssar os nossos amigos que tinham ido na patrulha.. Chegavam com

sede, calor e cansados, mas com saude e sem perigo.
Depois eram as perguntas....viste alguma coiza? houve rebentamentos?
Assim se passava mais um dia de patrulha!! mas......a tristeza

vinha, quando por meio do radio, a gente ficava a saber de tragedias.!

Em S. Domingos foi constante e habitual nas saidas para o mato, que

alguem nao mais retornava. Era desgosto,era tristeza e era desespero.



Quando chegava o Helicopetro para a evacuacao,havia lagrimas em todos

os olhos. A depressao tornou-se enorme e constante., Quando sabia -mos

quem era a pessoa magoada, havia dor e lagrimas. Era mais um martir

de uma guerra estupida, sangrenta e cruel. Vinha a raiva e vinha o

desgosto!! Seria um nosso amigo, da mesma terra, do circulo de amigos

mais proximo.! Sera que ele vai ficar bem? Sera que ele vai viver?

sera que ele.........etc etc.
Meus amigos, era a Guine, uma guerra sem ideais, sem justificacao e sem

legalidade. Uma crueldade,um massacre de inocentes, matar para viver,

viver para matar!!
Assim se passavam os dias na Guine, longe da familia de pais e

irmaos!!. As patrulhas que iam para o mato,sempre com a duvida se

voltariam o receio do que poderia acontecer,do perigo de minas e

emboscadas .Os que ficavam, porque receavam e pensavam tambem o pior,

ficavam preocupados e exaustos de sofrimento Afinal estava mos todos

no mesmo. Era a sobrevivencia.
Amigos mais uma historia, que foi a realidade do perigo do Ultramar e

o perigo a que todos nos estivemos expostos!.
Abracos fraternos e de muita amizade
Placido Teixeira - Ca. de Cav. 3365 S.Domingos 71/73

Nota de M. Seleiro:
O Plácido Teixeira num mail enviado no dia 04-04-2010

Meu amigo Seleiro
Mando-lhe este video e se for possivel por, pois e a minha resposta ao

ultimo texto que o meu amigo Parreira lhe enviou.Acho que e um

comentario muito bom e que ele goste concerteza.
Um abraco meu amigo e felicidades para voces.
Placido

Resposta ao Plácido no mesmo dia:
Que não me sendo possível baixar o vídio, do Youtube deixei ao seu

critério outra alternativa.

Na mensagem de hoje o Plácido volta a fazer o pedido:
A verdade é que não consigo baixar todos os comandos do vídio.
Vamos tentar o link abaixo...




Roberto Carlos na canção, amigo.
Clique aqui para ouvir,

Fotos © 2010 direitos reservados:

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terça-feira, 30 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P67: Deus escreve direito por linhas tortas, e livrou-me do Inferno deS. Domingos.

Mensagem do Ex Fur Mil Bernardino Parreira da C. cav 3365 S. Domingos.
71/73:
Com data de 30-03-2010




Deus escreve direito por linhas tortas, e livrou-me do Inferno deS. Domingos.


Já não sei ao fim de quanto tempo de permanência na Guiné, tinhamos
direito a gozar férias, só sei que tinha férias marcadas para vir à
Metrópole, suponho que para o início de 1972, quando recebi ordem para
partir em rendição individual para Guidage. Nunca cheguei a saber ao
certo se aquilo fora obra do acaso ou por "castigo". De subito senti
tristeza, porque iria separar-me dos meus companheiros e amigos, com
quem estava desde Janeiro de 1971, quando formamos Batalhão em
Estremoz. Despedi-me da malta que me foi possivel contactar e lá parti
para Bissau. Alguns fizeram questão de me fazer percorrer as ruas de
S. Domingos, em cima de um Unimog, para me despedir da população das
Tabancas que frequentava, onde tinha muitos amigos, e sensiblizou-me a
despedida comovente e afectuosa em que me envolveram.
Chegado a Bissau deveria ter-me dirigido ao Quartel General, com vista
a levantar as guias para a minha apresentação em Guidage, mas, mais
uma vez, quis Deus que eu fosse primeiro almoçar a um restaurante,
onde encontrei um amigo do Algarve, que tinha estado comigo na tropa
em Tavira, e que em Bissau estava nos Serviços Administrativos do
Quartel da Amura. Logo me perguntou o que estava eu ali a fazer, e eu
disse-lhe que tinha férias marcadas mas que me tinham lixado e mandado
para Guidage, ao que ele me alertou que depois das férias marcadas
ninguém tinha competência para as anular a não ser por motivo de força
maior, justificado superiormente, e perguntou-me se eu tinha comigo a
autorização das férias e de facto eu tinha. Depois ele ensinou-me
quais os documentos que eu deveria preencher nos Serviços
Administrativos do Quartel General, e assim o fiz.
Sem nunca me apresentar no Quartel, não fossem eles apanhar-me, andei
2 ou 3 dias por Bissau, a dormir numa pensão, até obter o bilhete de
avião que me transportasse para a Metrópole.
Mas a melhor estava para vir, estava eu no avião, já tinha encontrado
um camarada de Lisboa, e o Vagomestre, que estavam comigo em S.
Domingos e que também vinham de férias, quando vejo entrar o Sr.
"Pepino" que com os "bonitos" modos dele me pergunta "o que é que
fazes aqui?" e eu respondi-lhe "o mesmo que o meu primeiro..." e ele
interroga-me novamente "então não eras para estar em Guidage?" E eu
respondi-lhe " ...se assim fosse não estava aqui...", eu, com a minha
calma, e uma cara de gozo que se pode imaginar, e os outros, que
também não o gramavam, a rir também, o fulano até mudou de cor, e não
lhe cheguei a dizer como tinha dado a volta à situação.
Ao lembrar-me desta história, passados 38 anos, recordo-me do
camarada de Lisboa, de quem não me lembro o nome, que dado a hora
tardia a que o avião chegou, de noite, e eu não ter transporte para o
Algarve, me convidou para dormir em sua casa, na Cruz Quebrada, em
Lisboa, onde ele e a família me trataram muito bem, e eu fiquei-lhe
eternamente grato, se não tinha que andar de mala na mão, às tantas da
noite, à procura de Pensão em Lisboa.
Estive um mês no Algarve, gozei o máximo que pude, e depois regressei
a S. Domingos, mas, como o meu destino estava traçado, não foi daquela
vez foi de outra, lá fui para uma Companhia Africana, mas desta vez
para o Bachile, para a C. Caç. 16.
Ao deixar o inferno de S. Domingos, dei graças a Deus porque a minha
vida na Guiné mudou para melhor, deixei de estar sob bombardeamentos
massivos do PAIGC, vindos do Senegal, mas até no Bachile se ouviam os
ataques a S. Domingos e eu sabia quando os meus amigos e
companheiros estavam a ser flagelados, e sofria com isso.
Frequentemente recebia más notícias, de mortes e feridos em S.
Domingos, porque quando fazia escoltas a Teixeira Pinto, e mesmo no
Bachile, às vezes, encontrava camaradas de S. Domingos que estavam de
passagem.
No Bachile, com a mata da Caboiana próxima, considerada "uma das
residencias" do PAIGC, a Guerra não era fácil, mas como eu tinha vindo
de um autentico inferno, achei que tinha chegado a um "cantinho do
Céu"...!
Muitos dos militares da Companhia Africana, a que passei a pertencer,
tinham familiares do outro lado da guerra, e a maior parte deles
estavam na Guerra Colonial obrigados, tal como nós, só sei dizer que
fiz lá muitas amizades, de que sinto saudades, eu convivia com os meus
camaradas e amigos quer no Quartel quer fora dali, em jogos de futebol
e petiscos, e frequentava até as suas casas, no Pelundo, em Teixeira
Pinto, e noutras povoações vizinhas, onde residiam, e ainda hoje
considero os militares da C. Caç 16, brancos e africanos, meus
camaradas, meus irmãos, meus amigos, tal como sempre considerei os da
C CAV 3365.

Aqui envio uma fotografia do quarto que deixei em S. Domingos, em
Fevereiro/Março de 1972, e para onde voltei cerca de 1 mês antes do
embarque de regresso à Metrópole em Março de 1973, porque nessa altura
muito poucos se atreviam a dormir nas casernas.

Bernardino Parreira
Ex-Furriel Mil.

Nota: M. Seleiro
Ó Parreira o Pepino, era tramado. Não era?
Estava sempre onde não devia estar!

Fotos © 2010 do Ex Fur Mil Parreira direitos reservados.

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segunda-feira, 22 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P66: Poesia Agostinho Neto (ANGOLA) ,Sagrada Esperança

Voz do sangue

Palpitam-me

Os sons do batuque

E os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem

Ó dançarino de Chicago

Ó negro servidor do South

Ó negro de África

Negros de todo o mundo

Eu junto ao vosso canto

A minha pobre voz

Os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho

Pelas emaranhadas áfricas

Do nosso Rumo

Eu vos sinto

Negros de todo o mundo

Eu vivo a vossa Dor

Meus irmãos.

Agostinho Neto (Angola), Sagrada Esperança

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P65: Viagem Virtual a Guiné-Bissau.

Viagem virtual a Guiné-Bissau.
Clique aqui.

Superfície : 36 120 km²
População : 1 472 780 habitantes
Densidade : 48 hab./km²
Capital : Bissau, habitada por 388 028
Língua Oficial : Português
Línguas Nacionais : Crioulo Guineense (língua falada pela maioria), Balanta, Fula, Manjaco, Mandinga, Pepel e outras.
Religiões : Animismo/Crenças Indígenas (50%)
Islamismo (45%)
Cristianismo (5%)
Moeda : Franco CFA (da Comunidade Financeira Africana)
Data da Independência: 24 de Setembro de 1973
IDH (2006) : lugar 173 entre 177 países
PIB (2005): lugar 174 entre 180 países
(800 $US/ano, por habitante)

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P64: Os morteiros Cantaram!




Mensagem do Plácido Teixeira da C. CAV 3365 S. Domingos 71/73.
Com data de hoje 15-03-2010:
A Viver nos Estados Unidos.

Boston,




OS MORTEIROS CANTARAM




Cantaram um dia em que todos nos andavamos despreocupados. Por sermos ainda novos na Guine, pensavamos que afinal os nossos amigos inimigos, nao queriam nada connosco.
Estavamos todos sentados, uns a beber umas cervejas mal frescas, outros a volta do pequeno radio a pilhas, a ouvir a Miss Portugal outros a ouvir o Rod Stewart a cantar Someoone like you.....
De repente, um grande estrondo.!!
A confusao foi total devido a falta de orientacao. A desorientacao foi incrivel para um lugar de perigo.
Uns corriam para a esquerda outros para a direita .Finalmente decidimos ir para o abrigo do morteiro, que era o mais perto mesmo por traz da cozinha.
Tal foi a desorganizacao, todos andavam a correr sem saber que que fazer e para onde ir..para se defender.
O capitao, arrogante , ignorante e sem qualidades de comandar, com muito ma atitude, deixou que todos estivessemos desorganizados, desprevenidos e descontrolados.. Alem de um fraco profissional, nunca teve inteligencia para organizar a defesa, antes que tivesse acontecido um ataque. Sei que nesse primeiro ataque, os Morteiros cantaram!! Nao posso compreender que defesa esses morteiros, possam ter dado, para alem do barulho que faziam! Sempre pensei que estavamos desprotegidos e entregues ao destino,afinal nao me enganei concerteza..Havia de certeza a mao de D.s por cima de todos nos. Nao havia valentia, havia coragem,odio, desespero e ate lagrimas.Havia o medo que se transformou em Fe! .Afinal nunca juramos pela Patria, nao se jura com a boca fechada , ou amordacada. Nao se jura pela Patria quando somos obrigados a fazer o que nao queremos Se havia falta de Liberdade de expressao, quando nos diziam para calar a boca, como podiamos nos jurar defender a pela Patria, quando afinal nos era-mos os invasores? Esperavam eles que fosse mos o Salvador da Patria quando fomos deitados ao abandono, enviados para o desterro como criminais? Nao nao e assim!Quando debaixo de ataques,vi pessoas agarradas as cruzes que tinham ao peito e pedir a D.s.!! Ouvi chamar pela mae e por Nossa Senhora!!

Infelizmente, tivemos a primeira vitima!.
Nao pelo fogo, este amigo morreu devido a desorganizacao e bandalheira .O Capitao, tinha a Companhia totalmente desorganizada a deriva como um barco sem destino.. O nosso amigo foi apanhado em lugar nao seguro e foi ferido. Para ser tratado depois do ataque, foi a enfermaria, Como os fios electricos tinham sido cortados pelos rebentamentos, ficou tudo escuro e o nosso amigo teve o azar de trepar nos fios electricos. Infelizmente nada se pode fazer. Podia ter sido qualquer um de nos!
Era Alentejano, boa pessoa e foi a nossa primeira vitima. Jamais esqueceremos.

Fotos © do Plácido Teixeira, 2010 direitos reservados:

Nota: M. Seleiro

O Plácido escreveu:
O morteiro estáva atráz do refeitório, em princípio esse morteiro foi colocado aí em Dezembro de 69 pelo pelotão de caçadores nativos 60...
Um abraço amigos

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Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P63: Almoço convívio do Batalhão de Cavalaria (3846)

Mensagem do Bernardino Parreira da C. cav 3365 S. Domingos 71 /73:



Realizou-se no dia 14 de Março o almoço/convivio comemorativo do 37º. aniversário do regresso do Batalhão 3846, C.CAV. 3364; 3365;3366 e Companhia Independente.
Devo dizer que estive presente e vivi momentos de grande alegria ao reencontrar amigos e companheiros que não via há 37 anos, desde o nosso regresso de S. Domingos - Guiné.
Mas também de grande tristeza por ter tido conhecimento que alguns camaradas que julgava vivos já não pertencem a este mundo, e que outros se encontram doentes.
Foi com grande emoção que os meus companheiros da Cav. 3365 receberam a mensagem e o contacto do amigo e companheiro Plácido Teixeira. Alguns ficaram de visitar o Blogue da C. Caç 60.
Em nome dos companheiros da C. CAV.3365, presentes no citado convivio, envio um saudoso abraço ao amigo Plácido e um Bem Haja por manter bem vivo o espirito da Companhia os Quixotes.
Aproveito para agradecer ao Amigo Seleiro, autor e editor deste Blog, a oportunidade que nos tem dado de manifestarmos as nossas memórias e sentimentos.
Um abraço
B. Parreira

Nota: M. Seleiro
Caro Parreira:
A proveito o comentário ao post 60 do Plácido Teixeira:
Para enviar um abraço a todos os camaradas do Batalhão de Cavalaria 3846.
Afinal cruzámos os mesmos caminhos.
O Pel CaçNat 60, põe ao vosso despor o blogue para qualquer comentário, ou futuros anúcios do convívio do vosso Batalhão.

Manuel Seleiro
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P62: Fragmentos da vida

Mensagem do Plácido Teixeira da C. cav 3365 S. Domingos 71/73:

Com data de 11 de Março de 2010

A viver nos Estados Unidos:

Boston,








Fragmentos da vida




Lembro-me ainda dos dias em que ia e vinha da escola .A saudade que

tenho, quando de manha a minha mae me chamava.
Levantava-me entao com o frio de Tras os Montes. Vestia-me e

sentava-me a mesa para tomar o pequeno almoco. Tenho saudades dos

carinhos da minha mae, do amor que meu pai me dava. Lembro-me com

tristeza dos amigos de Liceu, que nunca mais encontrei. Lembro

eternamente com saudade as amigas e amigos de escola, dos dias de

sol, do nevoeiro nas altas montanhas. Lembro a minha terra, a minha

escola, as ruas onde passei e os campos das minhas bricadeiras. Quando

com o meu cao, ia apanhar grilos.
Lembro esse tempo com saudade, com ternura e tristeza. Disse, um

dia, adeus a tudo o que me viu crescer. A minha casa, os vizinhos, o

meu cao e ate o Ceu frio de Tras os Montes. A Escola primaria da

Estacao o velho Liceu, os Correios onde eu depositava as cartas das

namoradas ou amigas de Escola.
Um dia parti e chorei. Tive saudades..Para tras ficaram os dias frios

Transmontanos, o amor eterno da minha mae, o cantar nas arvores dos

passaros livres. Das borboletas que voavam de flor em flor. Parti fui

para a tropa. .
Fui para o Ultramar e sobrevivi. Passei maus bocados. Tive dor,

tristeza e saudade, mas resisti. Enfrentei maus pensamentos, invejas e

tirania. Mas venci. Regressei do Ultramar. Depois foram os Correios e a

Caixa. Portugal era um Pais sem futuro, eu queria Liberdade, Liberdade

onde eu pudesse seguir a minha Fe e os meus ideais. Foi novamente a

Escola para um futuro em frente. Nos Estados Unidos da America, fiz a

minha nova terra sem esquecer Portugal. Apanhei do chao, todas as

migalhas da vida, pu-las aos meus ombros e fui em frente!
Os Hebreus, tiveram sempre com eles as tabuas partidas da lei que D.s

deu a Moises .Carregaram os pedacos bem como as novas que D.s deu a

Moshe depois de ele ter atirado para o chao e partido, quando desceu e

viu os Hebreus a adorar a vaca de ouro. Carregaram-nas e andaram pelo

deserto. Como eles segui em frente, Hebreu filho de Avraham, carregando

comigo os fragmentos da vida, o bom e o mau. Procurando a minha terra

prometida. D.s deu-me os meus filhos. A eles passo a

responsabilidade de seguir a minha fe, carregar aos ombros os problemas

, os fragmentos da vida. Nao desesperar, mas ter coragem e seguir em

frente. Enfrentar quem nos confronta , insulta e quer mal!! Ter

coragem e orgulho do sangue que corre nas veias. Respeitar os outros,

amar os indefesos, matar a fome a quem tem fome, ajudar os idosos,

tratar com dignidade quem nao se sabe exprimir e ajudar a quem pede

ajuda. Ser persistente e ter coragem. No deserto incognito da vida,

eu afinal tambem tive a minha jornada. Europa, Africa e America. Valeu

a pena? Tudo vale a pena se a alma nao e pequena!! Placido

Nota:
do M. Seleiro.

Caro Plácido:
Fasso referéncia ao teu pedido para puvlicar junto com o texto, um

vídio sobre (Religião):
Uma vez que a temática do blogue, foi a guerra na Guiné...
Para evitar futuras reacções adversas e alguma polémica achei por bem

não publicar o vídio.
Um abraço,



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quarta-feira, 10 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P61: Aquele dia, (Dez de Março de 70!)



[Guiné]


Decorria então o Ano de 1970 na Guiné.

O primeiro cabo Seleiro a porta da habitação, cinco dias antes do acidente.
Quartel de S. Domingos.

Sector Militar, de São Domingos:
Algures nas matas da Guiné, junto a fronteira do Senegal.
Destacamento de São Domingos, sete trinta da manhã o pelotão de caçadores Pel Caç Nat 60.
Sai com destino, a fronteira do Senegal objectivo pintar os marcos que faziam a divisão da fronteira Guiné/Senegal...
As dez e meia da manhã volvidos os primeiros vinte quilómetros já em plena mata há uma chamada de atenção, alguma coisa se passa.

Os Homens paçam a palavra até chegarem a minha secção.
Sou informado que na frente, foi detectada uma mina anti-pessoal os Homens ficam nervosos.
Quando cheguei ao local da mina, o Alf Mil Hugo Guerra, informa que vai tentar levantar a mina, Decorridos alguns minutos pergunto ao Alf Mil Hugo Guerra como iam as coisas o que ele me responde que estava nervoso.
O Alf Mil Hugo Guerra da a ordem para que a mina seja desactivada.
Tomei o lugar dele junto da mina.
Procede-se a segurança do local para que as coisas decorram sem incidentes.
Mando afastar os Homens a uma distância razoável, processo que requer muita atenção.
Procede-se a desminagem do local, o momento de muita tensão...
O passo seguinte é desmontar o sistema da mina, que é constituido por a Dinamite, o
detonador este o mais perigoso que requer particular cuidado...
O inevitável aconteceu, a mina estava armadilhada e explode, gritos, confusão, leva algum tempo até os Homens se recomporem.

Esta fotos foram tiradas junto a porta da arrecadação do velho quartel de S. Domingos.
A foto mostra as três minas em situações diferentes.
A primeira está fechada e pronta a ser acionada.
A segunda está aberta, vê-se a dinamite e o mecanismo.
A terceira está aberta vê-se todo o mecanismo desmontado.


No momento tudo ficou em silêncio depois as vozes de algums soldados Que se aproximavam.
Senti umas mãos que me seguravam, era o enfermeiro José Augusto, que me prestava os primeiros socorros, colocava os garrotes para parar as hemorragias, o soro e uma injecção para as dores.
Alguns homens preparavam uma maca, com as camisas e uns paus para me transportar, fizeram cinco quilómetros comigo através da mata serrada.
O Alf Mil Hugo Guerra sai ferido com alguma gravidade…
Como estava relativamente perto de mim foi atingido por estilhaços.



Na foto acima está o Ex Alf Mil Hugo Guerra e o primeiro cabo Seleiro.


Pelo Rádio foi pedido ao quartel de São Domingos para mandarem viaturas ao nosso encontro para chegar mais rápido apista onde deveria estar uma avioneta a espera.
Assim foi quando chegamos a pista já lá estava avioneta, fui entregue á enfermeira Pára-quedista, (quero aqui prestar a minha homenagem a estas Mulheres, em particular a enfermeira Ivone).
Estas Mulheres muitas vezes corriam o risco quando tinham de socorrer os feridos em pleno combate...
Meia hora depois chegam a Base Aéria e fui levado para o Hospital Militar de Bissau.
Já no hospital, foram feitas as primeiras intervenções cirúrgicas, provavelmente devido as anestesias perdi a noção do tempo, e do local onde me encontrava.
Num momento de lucidez ouvi passos, que se aproximavam perguntei:
Onde me encontrava, foi me dito que estava no hospital de Bissau, perguntei quando ia para Lisboa: a resposta foi amanhã.
No dia seguinte pela manhã, tive a visita do Governador da Guiné o General António de Spínola.
Que deixou palávras de consolo e rápidas melhoras, e um elogio pelo dever de servir a Pátria...
Nesse mesmo dia a noite saí da Guiné no avião Militar.
Cheguei a Lisboa no dia treze de Março por volta das cinco da manhã caía uma chuva miudinha.
As macas eram muitas pois este avião Militar fazia o transporte de Angola, Moçambique, e Guiné, Em Lisboa as ambulâncias faziam o percurso de noite para não chamar a atenção dos lisboetas.
Nesta altura já estava internado no hospital Militar, na Estrela
Serviço de cirurgia plástica.
Quero aqui informar que logo que dei entrada neste serviço, entrei em coma...
Só decorridos quinze dias recuperei a consciência.
A partir da qui foi um desencadiar de acontecimentos uns bons e outros maus.
Descobri que não tinha uma das mãos o braço esquerdo estava com gesso, e tinha os olhos com pensos este foi o primeiro choque que sofri.
Os dias iam passando lentamente, até descobrir que estáva cego...
Mas o mais grave desta situação, a minha família não sabia que eu estava gravemente ferido no hospital Militar, os serviços do Exército não comunicaram o facto a minha família.
Os meus pais tiveram a informação por um amigo meu que por essa altura prestáva serviço no hospital militar.
O tempo decorrido da minha chegada a Lisboa, até os meus pais terem conhecimento foi de 23 dias...
No ano de setenta completei vinte e quatro anos estáva na flor da idade, andei de serviço em serviço durante mais quatro anos.
Em setenta e cinco saí do hospital Militar com a bonita recordação, cego, sem a mão direita e dois dedos na mão esquerda.
Moral baixa estado psicológico baixo.
O hospital Militar não dispunha de Psicólogos...

*A data que consta no texto a cima é a minha versão do acidente.
A versão do Alf Mil Hugo Guerra aponta para o dia 13 de Março.

Entrada para o serviço Militar 18 de Abril de 67.

Partida de Lisboa, 12 Julho 1968 para a Guiné.

Acidente na Guiné 10-03-1970

Manuel Seleiro
Primeiro cabo

DFA,

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P60: Memória para os valentes da companhia de Cavalaria 3365:

Mensagem do Plácido Teixeira da C. cav 3365 S. Domingos 71/73.
Com data de 08-03-2010
A viver nos Estados Unidos.
Boston,














Quando olho o relogio e vejo as horas passar, quando vejo um bonito dia

de sol, transformar-se numa noite escura ou uma bonita flor morrer e

desfazer-se, vejo o sinal que tudo acaba, tudo morre. Que tudo tem

fim!!
No Outono, vejo as arvores que eram verdes e frondosas, transformar-se

em castanho e triste. Onde os passaros, alegremente cantaram,

deixaram as folhas cair tristemente no Outono. Deu D.s o nosso corpo

para transportar a nossa alma . A nossa vida e alegria, um dia vai

tambem chegar ao fim!!. Para sempre ficara na memoria, a nossa

personalidade e amor. A nossa alegria e o que fizemos de bem. Uns

partirao por doenca, outros por velhice. A vida acaba tal como

acabaram as flores dos jardins e as folhas das arvores!
Outros infelizmente, deixaram a vida a qual foi muito curta. Foi-lhes

cortada, devido a crueldade, ganancia do poder e desprezo dos homens.

Partiram, vitimas de uma guerra cruel e sem fundamento.
Os que nos deixaram e pertenceram a COMPANHIA DE CAVALARIA 3365,

amigos, camaradas, militares e companheiros, descansem em paz . Nos

nunca vos esqueceremos. Enquanto nao nos juntarmos todos na vida

eterna, ao lado de D.s, voces estarao sempre no nosso pensamento, nas

nossas oracoes, no nosso coracao. Aos corajosos da Companhia de

Cavalaria 3365 que tiveram a felicidade de chegar ate aos dias de

hoje,que continuam a ser a verdura das arvores e as flores dos jardins,

mais um aniversario de uma data que todos lembramos concerteza, o

desejo e que possamos gozar muitos mais anos com a nossa familia e

rodeados de amizade. Bem haja P.Teixeira

Fotos © do Plácido Teixeira direitos reservados
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P59: S. Domingos Guiné- no dia em que um pelotão disse NÃO


A foto acima mostra um pelotão da C. cav 3365 a fazer segurança ao pessoal que anda apanhar lenha.


A segunda foto mostra pessoal do Pelotão do Ex Fur Mil Parreira
apanhar lenha.



Mensagem do EX Fur Mil Bernardino Parreira da C. cav 3365 S. Domingos 71/73:
Com data de 28 02 2010.

No cumprimento do Serviço Militar Obrigatório fui mobilizado como
furriel miliciano para a Guiné, mas tenho de confessar que nunca me
moveu o sentimento de "Defesa da Pátria". Sentia-me apenas mais um
desgraçado, utilizado pelo Governo de então, para servir de carne
para canhão, numa Guerra Colonial injusta, e com a qual o Povo
Portugues não se identificava. De modo que o meu objectivo desde que
cheguei à Guiné era a minha sobrevivência e a dos meus companheiros.
Nunca me considerei nem medroso nem valente, nunca prentendi ser
herói nem ganhar medalhas.
A minha conduta sempre se pautou pelo respeito para com os meus
superiores, mas não pela obediência cega. Para mim, acima de tudo
estava o respeito pela vida e pela dignidade humana.
E era com base no respeito mútuo, e na confiança, que os soldados do
meu Pelotão acatavam as ordens que eu lhes transmitia.
Era eu que na C. CAV. 3365 estava incumbido de elaborar as escalas de
serviço, de toda a Companhia, para as mais diversas funções de
patrulhamentos, defesa do quartel, abastecimento de água e de lenha
ao quartel, etc. etc., e os serviços sempre foram assegurados, sem
nunca ter tido problemas com o pessoal que era colocado, de forma
rotativa, nas varias missões que lhe eram confiadas.
Já havia perto de 1 ano que tinhamos chegado a terras da Guiné, mais
concretamente a S. Domingos, já tinhamos sofrido muitas situações
dramáticas, com bombardeamentos ao quartel, emboscadas, camaradas
gravemente feridos, mas nunca tinhamos baixado os braços.
Em Novembro de 1971, o Alferes do meu Pelotão havia sofrido ferimentos
graves na sequência da desmontagem de uma mina anti-pessoal, o que
levou à sua evacuação para a Metrópole. O Pelotão ficou bastante
abalado com aquela triste ocorrência, e, dado não ter havido
substituição do referido militar, o comando do Pelotão era assegurado
pelos furrieis, um dos quais era eu.
Normalmente saíam 2 Pelotões para o mato, e na véspera o nosso
Capitão transmitia as ordens aos Furrieis do 4º. Pelotão, que era o
meu, e ao Alferes do 3º, bem como entregava o mapa com os
"objectivos" a atingir, mas, naquele dia, no final de 1971, ou inicio
de 1972, já não sei precisar bem a data, não o fez.
Apenas o Alferes do outro Pelotão fora informado que tinhamos uma
operação no dia seguinte de madrugada. Como sempre, alinhamos à hora
marcada, e lá fomos caminhando horas e horas para destino incerto. Os
soldados dos dois Pelotões e os furrieis, começaram a notar uma
certa desorientação do Alferes, que estava a desviar-se dos trilhos
por nós conhecidos, mostrando nervosismo e desconhecimento do
percurso a efectuar, e questionavamo-lo para onde nos estava a levar?
E o Alferes respondia que "não tinhamos que saber, que quando lá
chegássemos logo sabiamos"! Todos nós eramos militares experientes, e,
quer de noite ou de dia, conheciamos trilhos e caminhos a percorrer,
naquela densa mata, na região de S. Domingos. Mas receavamos a
aventura em que ele, sob as ordens do Capitão, nos estava a
envolver, e assim andamos Kilómetros e Kilómetros, por mata cerrada,
até que os homens cansados, e exaustos com o calor, começaram a
sentar-se e a recusar prosseguir o caminho para o destino incerto e
desconhecido para nós, e continuavam a perguntar, "para onde é que
este gajo nos leva"?
Ao ver o perigo a que nos estavamos a expor, desnecessariamente, de
imediato me solidarizei com os meus companheiros, e disse ao Alferes
que ou ele me dizia para onde íamos ou eu e o meu Pelotão voltavamos
para o quartel, tendo ele respondido que "não dizia, e que era ele
quem dava as ordens recebidas do Capitão".
Perante isto, eu e o meu companheiro furriel, assumimos a
responsabilidade de regressar ao quartel com o nosso Pelotão. Só que a
maioria dos homens do outro Pelotão, ao qual o Alferes pertencia, de
imediato lhe desobedeceu e colocou-se atrás de nós no sentido de
regressar connosco. E o Alferes, para não ficar no mato com cerca de
meia duzia de militares, seguiu-nos no regresso.
Escusado será dizer que o Alferes comunicou via rádio para o Capitão,
e quando nós chegamos ao quartel já o mesmo estava à porta do Comando,
aos berros, a esbracejar e a proferir ameaças contra mim e contra o
outro furriel.
Quem me conhece sabe que nunca fui cobarde, e se fosse necessário
arriscar a minha vida para defender a dos meus companheiros eu era o
primeiro a voluntariar-me, mas para actos de bravura ou de
aventureirismo na guerra não me perfilava.
Passados poucos dias, eu e o meu camarada furriel, fomos transferidos
para outro quartel.
Nunca me arrependi da minha decisão e não sei o que nos teria
acontecido se tivessemos prosseguido por aquele caminho desconhecido,
quando sabiamos que o PAIGC dominava toda aquela zona. Era a vida e a
integridade física de mais de 60 homens indefesos, que ali seguiam,
que estava a ser posta em causa, sem razão que o justificasse.
Devo realçar que eu era amigo do referido Alferes, e mesmo depois
deste episódio continuei a sê-lo. O que estava em causa não era a
nossa camaradagem, eram as nossas divergências na execução integral
das estratégias delimitadas pelo Capitão, que ficava sentado à
sombra, no quartel, a beber e a fumar, sem arriscar a vida dele, e
sem ter o mais infimo respeito pela vida e dignidade dos militares que
comandava.
Se até os comandos da aviação recusavam enviar os seus aviões para
aquela zona, onde do ar era possível controlar as movimentações do
PAIGC, porque teriamos de ser nós, a "tropa macaca", como nos
apelidavam, a entregar o corpo às balas e às minas?

Bernardino Parreira
Ex Furriel Mil.

Fotos: © do Bernardino Parreira da C. cav 3365 Direitos reservados:

Nota: M.Seleiro

Amigo Parreira admiro a vossa rebeldia:
E o assumir o peso dessa responsabilidade que não devia ter sido fácil.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P58: as nossas amigas, (PRETAS,)de S. Domingos.









Mensagem do Plácido Teixeira da C. cav 3365 S. Domingos 71/73:
Com data de hoje:
26 02 2010.
A viver nos Estados Unidos:
Boston,


As nossas amigas pretas de S.Domingos



"
Durante dois anos, foram a nossa amizade feminina!
Foram nossas companheiras, amigas. Foi com elas que desabafamos ao mesmo tempo que elas nos confidenciavam os seus segredos pessoais!!
Foram nossas lavadeiras, muitas vezes nos davam conselhos. Tinham bonitas caras e bom coracao. Eram carinhosas, meigas e bem dispostas. Com elas, tenho a certeza, que muitos de nos se tornaram homens e com elas perderam a inocencia.
Quem sabe quantos descendentes por la teriam ficado? Nao era afinal nenhum crime, era a naturalidade da vida!! Foi a natureza a trabalhar.
Tinham um amor imenso por nos davam-nos carinho e muita ternura. Eram seres humanos com as mesmas necessidades e carencias ..Choravam, riam e sofriam.Tinham medo e tinham solidao. Falavam connosco como se fossem familia, viviam a vida simples, o isolamento, a solidao tal como todos nos militares!! Bebiam connosco e juntos viviamos a vida.
Eram afinal as nossas amigas que tivemos e deixamos em S.Domingos!!

Fotos © Plácido Teixeira da C. cav 3365 direitos reservados.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P57: O SR pepino.


Mensagem do Plácido Teixeira, da C. cav 3365 S. Domingos 71/73.
Com data de 21-02 2010.

A viver nos Estados Unidos:
Boston,








Pepino, era uma pessoa da nossa Companhia, que diariamente nos fazia rir devido a sua imaginacao inculta ... Arrogante e barrigudo. Chico por profissao!
Trombudo e mal encarado, o Senhor Pepino, comeu moscas e engoliu moscardos. Foi o bobo da festa, ignorado e desrespeitado como ser humano. O senhor Pepino, parecia mais uma abobora do que um pepino. Deram-lhe este nome e com ele ficou. Colou como cola!!!
Afinal nao eramos canalha, eramos pessoas cultas, inteligentes e jovens. Estavamos la obrigados. Ele escolheu ir para a Guine, ganhar bom dinheiro!! Como tal, nao aceitavamos as besteiras do Pepino. Havia sempre maneira de retaliar as furias dele que passavam entao a ser um um Show de comedia!
A hora do almoco, de repente havia o silencio, depois de se sentir um barulho como uma cavalgadura, chegava entao o Pepino, como se fosse o Presidente!
Primeiro ouvia-se as patadas. Depois via-se um bandulho, que era a barriga e so depois passados uns minutos, aparecia o resto do corpo.
Sentava-se a mesa como um labrego , de pernas abertas, porque a barriga caia entre elas. Cara vermelha e a suar, parecia um boi a bufar!! Havia sempre um argumento negativo da parte dele.... A agua esta quente! A comida esta fria! A comida e muito pouca! etc etc.
O senhor Pepino, de ignorante que era, esquecia-se que para ter agua fresca, era preciso electricidade e esta so vinha para a noite, quando vinha.
Quanto a comida, o labrego queixou-se sem razao que estava fria e a partir dai, a comida dele estava sempre a espera dele!!
Lembro-me que o Pepino, um dia talvez por inveja do tempo livre que eu tinha, ou porque quisesse ganhar a batalha comigo, tentou por-me na secretaria a ajudar. Chamou-me e disse. "E pa sei que trabalhas nos Correios, que sabes escrever a maquina, precisava de ti na secretaria para adiantar as coisas".
O dia marcado la fui eu, chateado e a pensar...!! Pos-me na maquina, tinha papeis por todos os lados. Eu nao fiz nada de jeito, so asneira mais asneira e deitar papeis para o lixo!!! O Pepino ficou irritado, atrasou-se ainda mais e disse: -
"E pa pensei que sabias escrever melhor a maquina! Entao tu nao trabalhas nos Correios e nao escreves a maquina?" Eu disse, e verdade, mas eu nos Correios so sirvo para vender selos e despachar encomendas!! O Pepino nunca mais me quiz para escrever a maquina e servir de seu empregado. Havia tambem comedia, quando o Pepino ia tomar o cafe e estavam os Furrieis em chinelos e camisa aberta. O Pepino ficava doido, nao conseguia ter a boca fechada. Era entao quem mais podia rir por baixo das mesas. Houve ate alturas que o Pepino estava sentado, parecia uma vaca a tomar o cafe, e entao o costume era os furrieis entrarem por uma porta e sairem pela outra. Enquanto ele lá estivesse ninguem queria estar perto. Era tratado como um palhaco, era ignorado e desrespeitado. O Pepino, comeu moscas e engoliu moscardos . Mas afinal foram episodios de boa disposicao, em que o Pepino e outros foram os actores, que nos ajudaram a passar o tempo e ate tirar do pensamento o pior que o dia a dia nos dava.

Fotos © do Plácido Teixeira, da C. cav 3365 direitos reservados.


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P56: Lágrima de preta, Poesia.



Coro dos escravos Hebreus.
NABUCCO (Verdi)



Lágrima de preta

Encontrei uma preta

Que estava a chorar,

Pedi-lhe uma lágrima

Para a analisar.

Recolhi a lágrima

Com todo o cuidado

Num tubo de ensaio

Bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

Do outro e de frente:

Tinha um ar de gota

Muito transparente.

Mandei vir os ácidos,

As bases, os sais,

As drogas usadas

Em casos que tais.

Ensaiei a frio,

Experimentei ao lume,

De todas as vezes

Deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,

Nem vestígios de ódio,

Água (quase tudo)

E cloreto de sódio.

António Gedeão,

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P55: (Você meu amigo.)




Mensagem do Plácido Teixeira da C. cav 3365 -S. Domingos 71/73.
Com data de 14 02 2010
A viver nos Estados Unidos.
Boston,



Voce, tal como eu e todos os demais jovens da nossa idade naquele

tempo, sofremos
os
perigos e horrores da Guerra Colonial, somos todos vitimas. Uns mais

do que outros, vitimas inocentes de abuso politico.
Voce que sofreu no corpo o crime cometido por senhores do poder, que

não pensaram em si, ou em todos nós!! Pensaram somente no poder, no

colonianismo e interesses pessoais com importancia.
Voce que andou numa guerra, injusta e criminosa, voce por quem eu tenho

o maior respeito, voce que foi vitima de interesses, de ditadores

rudes, criminosos que usaram o povo portugues e a sua juventude, que

sacrificaram gerações e as usaram em nome da Pátria .
Voce que continua ignorado, por um Governo que se diz Democratico e

que nada faz pelo seu bem estar ou para aliviar o seu sofrimento e de

sua familia.
Voce que chorou lagrimas de sangue, as mesmas que seus pais, seus

filhos, sua esposa ou ate a rapariga que voce amava, choraram por si.
Voce, amigo que partiu para sempre, deixou tristeza, deixou saudade,

deixou na memoria de todos nós, a boa pessoa e amante da vida, que

voce era.
Voce, amigo que tinha ainda tanto amor para dar e alegria para viver!
Voce, amigo, jovem, cheio de energia e talento e juventude, poderia

ter feito tanto por Portugal, pelos amigos e pela familia.
Voce, meu amigo, que deixou para sempre, os seus companheiros

militares, amigos, mas eles de si nunca se esqueceram . Sabem que

voce, esta com D.s!!
Voce, meu amigo, continua na memoria, desses que consigo jogaram à

bola, às cartas, e que passaram bons momentos numa festa ou até num

almoço.
Esses amigos, ficaram tambem marcados para sempre, pelas tragedias

pessoais dessa guerra, com a saudade, a tristeza do sofrimento. Esses

amigos passaram noites sem dormir, a pensar nos companheiros feridos,

no sofrimento e nos que partiram para sempre. Esses amigos ficaram

marcados pela tragedia e tremiam de medo ao ouvir um barulho mais

forte, mais intenso. Muitos desses amigos, ainda hoje sobrevivem

traumatizados pela guerra, continuam a viver pelas ruas das nossas

cidades!!
Voce, meu amigo, tal como os amigos que partiram para sempre, mais os

que vivem nas ruas, e ainda os que hoje sofrem a saudade de todos

esses menos afortunados, foram vitimas de interesses pessoais e de

poder politico, continuam hoje esquecidos, por outros politicos, com os

mesmos interesses de poder e pessoais. Voce, amigo nao está esquecido,

nunca será esquecido pelo seu amigo, companheiro e camarada. Voce

amigo, continua sempre no pensamento.
Voce, meu amigo, eu nunca o esqueci. Voce, meu amigo, que me deu

palavras de carinho, de ânimo, de força e de coragem para o futuro!

Voce, meu amigo, que confiou em mim, que me deu valor eu nunca o

esqueci. Meu amigo, você foi meu amigo e tenho imenso orgulho de ser

seu amigo!!. As circunstâncias da vida tornaram impossivel que eu lhe

retribuisse a mesma amizade e coragem a mesma confiança, o mesmo valor

!! Voce, meu amigo foi valente, voce teve coragem, voce e ainda hoje

um heroi, porque tenta dar animo e ajuda aos ex-combatentes menos

infelizes . Voce tem lutado e conseguido que eles nunca tenham sido

esquecidos.Voce conseguiu que eles tenham tido uma vida humanamente

mais digna!! Bem haja e que D.s o abençoe



Fotos © do Plácido Teixeira, da C. cav 3365 direitos reservados.

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P54: Poesia Chamam-te Rosa, minha preta formosa,





Rosa

Rosa.

Chamam-te Rosa, minha preta formosa,

E na tua negrura

Teus dentes se mostram sorrindo.

Teu corpo baloiça, caminhas dançando,

Minha preta formosa, lasciva e ridente

Vais cheia de vida, vais cheia de esperança

Em teu corpo correndo a seiva da vida

Tuas carnes gritando

E teus lábios sorrindo...

Mas temo a tua sorte na vida que vives,

Na vida que temos..

Amanhã terás filhos, minha preta formosa

E varizes nas pernas e dores no corpo;

Minha preta formosa já não serás Rosa,

Serás uma negra sem vida e sofrente,

Serás uma negra

E eu temo a sua sorte.

Minha preta formosa não temo a tua sorte,

Que a vida que vives não tarda a findar...

Minha preta formosa, amanhã terás filhos

Mas também amanhã...

... amanhã terás vida!

Amílcar Cabral (Cabo Verde) in Revista "Mensagem",

Ano I, nº 6, Janeiro de 1949

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P53: Notas Soltas.



Notas soltas:

Guiné, Ingoré ano de 69.
Uma pequena história, de um grande homem.
Pirróne era o seu nome, condutor auto de especialidade da companhia de caçadores 1801…
Conheci-o em Ingoré quando da ida do pelotão de caçadores nativos 60 para aquele quartel.
Era uma pessoa calma mas de uma compleição física fora do comum era alto e de uma força física sem igual…
Normalmente quando saía em coluna auto na GMC que lhe estava atribuída, nunca conduzia dentro da referida viatura.
Durante as picagens conduziam só com um pé no acelerador e resto do corpo fora da GMC este modelo creio que era o mais antigo, o tejadilho era de chapa e o banco do condutor era um saco de areia.
Nunca vi este homem de camuflado, o seu fardamento abitual era uns calções, uma camisa número 2 e chapéu de palha, por vezes andava de chinelos…
O Pirróne era temido, e respeitado desde o soldado, ao Capitão.
Amigo do seu amigo, mas quando as coisas corriam para o torto, atenção! O Pirróne não perdoava.
Segundo a versão que corria entre os camaradas do Pirróne quando da passagem da 1801 pelo Cacheu, a companhia passou ali a noite quando seguia para Ingoré.

Ainda era o velho quartel junto ao Rio, nessa noite ouve um grande ataque ao quartel do Cacheu…
As instalações eram pequenas para duas companhias, ouve muita confusão e muitos feridos com gravidade.
Ouve dois homens da 1801 que se destacaram, um dos soldados subiu para o terraço do edifício, e de metralhadora MG em punho varria toda a zona da capela, onde estava um canhão sem-recuo.
O Pirróne saío do quartel sozinho levou consigo o cinturão cheio de granadas de mão, e a G3 e partiu pela rua principal do Cacheu em direção onde se realizava o mercado e assim foi progredindo, rajada a esquerda e a direita uma vez por outra lançava uma granada para progredir no terreno.
Foi assim que o IN foi abrandando o fogo na direção do Quartel, o soldado da MG foi condecorado e o Pirróni exibia varias cicatrizes no rosto.
O quartel de Ingoré, tinha dois destacamentos, o do Sedengal, o da Totinha, o Pirróni foi destacado para o Sedengal, por três meses.
Passados 36 dias da sua presença ali os camaradas que se encontravam sentiam no Pirróne um líder, aproveitaram para contarem que as coisas sobre a comida andavam muito mal.
Depois de fazer algumas investigações junto do cabo do depósito de géneros e do cozinheiro, chegou a conclusão que havia bacalhau e batatas para fazer uma vez por semana coisa que não acontecia a muito tempo.
Houve uma reunião na caserna com cerca de 20 soldados com o Pirróne como chefe, a decisão tomada foi de falar com o Alferes comandante do destacamento.
Foi dado um prazo ao Alferes, de três dias para dar uma refeição de batatas com bacalhau…
Mais foi dito se tal não viesse acontecer o Pirróne saía do Sedengal com os homens que o quisessem acompanhar até Ingoré.
Ao terceiro dia na refeição do almoço não foi o que eles esperavam.
Depois de uma curta reunião no refeitório cerca de 14 homens comandados por o Pirróne formaram em frente ao comando, armado, e de camuflado onde o pirróne deu as vozes de comando aos homens.
Informou o Alferes que iam partir em coluna até Ingoré onde chegaram por volta das 16horas…
Chegados a Ingoré…
Soldados, oficiais e sargentos do quartel de Ingoré ficaram todos com curiosidade em saber o que tinha acontecido!
Lá estava o Pirróne com os seus 14 homens mandou pôr os soldados em sentido, e apresentou-os ao Capitão. O capitão deu ordem para ficarem a vontade e pediu que o Pirróne fosse ao seu gabinete.
Uma hora depois da conversa ter terminado foi feita uma coluna auto para levar um carregamento com géneros e os 14 homens para o destacamento do Sedengal.
Ninguém ficou a saber o que se passou no gabinete do capitão.

A escolta foi feita pelo pelotão de caçadores nativos 60.

Primeiro cabo Manuel Seleiro
DFA,

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P52: Memórias do Tempo Passado.











Memsagem do Plácido Teixeira da C. cav 365 S. Domingos 71/73.

Com data 06 02 2010:

A viver nos Estados Unidos:
Boston


Memórias do tempo Passado.





Desde que disse ao meu filho que estive em Africa, que andei la como

militar, a curiosidade dele em saber mais, e enorme !!.
As perguntas sao incessantes e continuas. A Africa, a guerra, o que

fazia, etc.!!
Por vezes ja nao consigo responder a tanta pergunta. Fico cansado e

por vezes, peco-lhe ate para deixar algumas perguntas para o dia

seguinte.
Disse-lhe o que foi a guerra e qual foi a razao. Expliquei como se

vivia com o perigo.! Como viviam os nativos e como nos os respeitava-

mos como seres humanos, tal e qual como eramos nos. Que genero de

Governo havia em Portugal nessa altura. Que escuro era o nosso Pais

onde nao havia liberdade. Um pais que tinha um Governo que chamava de

""Marranos"" as pessoas com a nossa Fe, Que no servico militar

obrigatorio nao interessava se fossem Marranos, doentes, ciganos ou

outras minorias. Eram todos obrigados a ir para a tropa de onde nao

se podia sair. Enviados para o degredo, para longe da familia, em

Africa.
Contei-lhe como foi a nossa vida na Guine, das privacoes,

limitacoes, abandono e ignorados pelo mesmo Governo!.
Disse-lhe que Portugal era um pais de fome e de pobreza, sem o minimo

respeito pela dignidade humana. Que nao havia democracia e direitos

humanos, que nao havia direito a voto, que nao se podia escolher os

Governantes. Que muitas pessoas roubavam para matar a fome aos flhos e

poder sobreviver.
Disse-lhe que Portugal, nessa altura, nao tinha um Governo legitimo e

como tal, era repudiado, nao era reconhecido pela maioria do Mundo

livre. Que Portugal nao podia comprar armamento, para a nossa defesa,

pois ninguem as vendia a Portugal. Contei-lhe do arame farpado que me

fazia lembrar um campo de concentracao!! Ele, sabe bem da historia e

do passado Nazi, pelo qual esse mesmo Governo teve admiracao!! Ele

aprendeu na escola os crimes cometidos contra um povo, do qual

fazemos parte, somente porque acreditamos num so D.s!!!! Contei-lhe

que esse Governo, tirou alimentos aos Portugueses, para vender aos

Nazis, que esses alimentos foram pagos com o ouro roubado das vitimas

dos campos de concentracao!! Crimes esses que a humanidade e o Mundo

moderno, nao pode negar!!. Contei-lhe das necessidades e privacoes, das

amizades de pessoas que nos respeitaram. Disse-lhe que em 39 anos, eu

nunca falei disto a ninguem, talvez por respeito a mim proprio ou

porque nao queria que outros soubessem o que foi o sofrimento em

Africa. Disse-lhe que antes de eu fechar este assunto para sempre,

era finalmente altura de lhe contar .
Depois de lhe explicar tanta coisa, ele olhou para o chao, houve

silencio e ficou assim algum tempo. Depois um sorriso e um abraco.
Olhou para mim e disse-me, nem sei como o teu pai te deixou ir!!.
As lagrimas estavam nos olhos dele e eu nao pude conter as minhas.
As criancas tambem nos dao licoes de vida, alem das licoes de amor, que

nos dao diariamente. Acredito que o melhor que se pode deixar aos

filhos, sao memorias, o tempo passa, mas as memorias ficam eternamente.

Dedico esta mensagem com homenagem a todas as vitimas da guerra inutil,

injustificada e de terror politico
Meus amigos bem hajam!



Nota:
Vídio enviado pelo Plácido Teixeira.
Carta de um pai para um filho.


name="allowscriptaccess" value="always">allowfullscreen="true" width="425" height="344">



Nota:
Do Bernardino Parreira Ex Fur Mil da C. cav 3365 S. Domingos 71/73.



Meu Grande Amigo Placido
A forte emoção que tive ao ler este texto deixou-me sem palavras.

Comove até às lágrimas! Ouvir da boca de uma criança a exclamação "não

sei como o teu pai te deixou ir"!! Trespassa-nos o coração. Meu D.s, as

crianças pensam que os pais os protegem sempre, e nós às vezes ficamos

sem resposta...
Este texto está Excelente, ensina miúdos e "graúdos". B.Parreira


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P51: O primeiro Sargento que tratava o Morteiro por tu.



Quartel de Ingoré ano de 69.
Companhia de caçadores 1801 67/69:
Chamava-se Óscar era primeiro sargento, da Caç 1801.
Tinha a sua responsabilidade a manutenção do morteiro 81 e apontador do mesmo…
Este homem tinha a particularidade de tratar o morteiro 81 por tu!
Dentro do abrigo as caixas das granadas estavam arrumadas segundo o seu método de trabalho.
Havia uma caixa de granadas com todas as cargas, propulsoras e duas ou três de granadas sem cargas.
O abrigo era em forma de meia lua, e tinha umas estacas de madeira, numeradas o que ele chamava de cota de tiro.
O primeiro sargento Óscar era considerado o melhor apontador de morteiro em todo o sector de S. Domingos e arredores…
E o que lhe dava esse estatuto, de melhor apontador de morteiro 81 era um pormenor muito importante…
Este homem conseguia por no ar (doze granadas de morteiro 81 e rebentarem de rajada!)


Nota:
A pessoa que está na foto não é o primeiro sargento Óscar.

Manuel Seleiro

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P50: Não chamem cobardia!





Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar










Adriano Correia de Oliveira.
Menina dos Olhos Tristes
Clique aqui.




Mensagem do nosso camarada Plácido Teixeira, da C. cav 3365 S. Domingos, 71/73.


A viver nos Estados Unidos:

Boston,



Enviou a seguinte mensagem, com data de hoje:






















Meus amigos
Quero compartilhar com todos voces, o que foi S.Domingos. Nao foram concerteza ferias ou ate um

safari em Africa. Foi uma guerra inutil alimentada por um Governo Europeu, que pos em perigo a

juventude, filhos e ate pais, que recusou a liberdade do povo africano, bem como a nossa propria

liberdade. Nao houve voluntarios houve obrigacao. Nao pela Patria mas pelo servico militar, para

depois sermos abandonados em terras longinquas. Fomos diariamente atacados por melhores armas,

melhor equipamento ao qual nao podiamos resistir. A destruicao era entao total. A desmoralizacao

aumentava e o desespero estava a vista. Um Governo que dava morteiros, e pouco mais para

defender a nossa vida! Onde estava a valentia? Nao havia valentes! Nada se fazia por esse Governo

a nao ser salvar a vida. . Como podiam Governantes que nao eram reconhecidos no Mundo livre,

obrigar a Juventude Portuguesa praticamente a defender-se com espingardas antiquadas,

morteiros e obuses de geracoes antigas e pouco mais que tenha tido nome?
Protegidos mal e porcamente pelos pelos velhos e lentos avioes , que por vezes nem nos podiam

oferecer proteccao. Havia o perigo de nos atingir e entao sermos nos as vitimas.. Pelas fotos,

ve-se a destruicao,!! Destruicao, causada pelos RPG.s e os famosos misseis de fabrico Sovietico.
Nunca tentamos ser valentes nem tao pouco apoiar um Governo cuja ideia era massacrar a Juventude

Portuguesa, usar para carne de canhao e tratar como carneiros.!!Nunca ninguem, nenhum de nos, foi

valente em troca de medalhas ou diplomas!!
Fomos obrigados a uma guerra que nunca deveria ter existido e para isso nao houve voluntarios,

nunca houve vencidos ou vencedores. Eles queriam a Liberdade ao mesmo tempo que em Portugal se

gritava pelo mesmo! O nosso povo estava farto de ditadura e caixotes de pinho. Esses lobos

famintos do Governo nada faziam e nada fizeram pelos que ficaram inutilizados e traumatizados,

passamos fome e sede. Ficamos sem panelas, electricidade e frigorificos. Alimentos e municoes

muito poucas.Fomos mendigos. Tivemos que andar na tabanca a mendigar por galinhas, porcos e o que

desse para comer. Beterraba serviu para substituir as batatas, que nao havia.
Nao fomos todos agarrados a mao, porque eles nao quizeram,afinal deram-nos mais respeito que o

Capitao barrigudo e mal encarado., sem personalidade e fraco professional. Pouco faltou para

que o quartel tenha sido invadido pois as condicoes e seguranca em que estavamos eram muito

limitadas. Chegamos a dormir e a comer com a espingarda ao lado. O Comandante do Batalhao, com

cara de Esganarelo e barriga de Sancho Pansa, deveria ter sido o unico voluntario para aquela

chamada guerra, esse viajava de helicopetro talvez com escolta enquanto os nossos homens

obrigados a ir para a guerra e para o mato em patrulhas, viajavam em velhas GMC do tempo da

guerra mundial e outras viaturas que o Governo comprava na Alemanha cuja finalidade era uso

civil, mas que transformava para uso militar.Portanto meus amigos, foi fome, peste e guerra.

Houve pessoas destemidas, que se recusaram a ir para o mato, outros recusaram e renunciaram a

patrulha e houve ate ameacas de desercao
Nunca se pos a vida em perigo, por medalhas ou meritos, pois sobreviver era entao o que estava no

pensamento.
Meus amigos, pelos que deixaram este Mundo por essa Guerra, devemos alem de tudo, rezar e que D.s

os tenha em Paz!
Bem Haja
Placido Teixeira

Fotos: © Plácido Teixeira direitos reservados.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P49: camarada deficiente


camarada deficiente
deficiente companheiro

Tu és um grito poema saltando duma garganta,garganta escrava que foi garganta liberta que é! Tu foste o motivo que causou. Tu foste a causa que motivou a libertação que eu poema sinto e sou! Tu companheiro foste o mal necessário sem o qual não teriam despertado os capitães d'Abril! Sem ti Companheiro mutilado muitos... mas muito soldados seriam sacrificados nestes dois anos d'Abril! Eu sou um poema inteiro não mutilado porque sou feito de ti do sinistrado da viúva, do órfão e trabalhador explorado! -Tu és um símbolo: não de fascista, nem de explorador! Tu tens toda a raiva qu'eu tenho de ofendido, oprimido, colonizado! Eu sou um poema sentido porque sou feito de ti! Tu foste peça d'armamento e como instrumento matámos! (é preciso que o poema que somos grite: MATÁMOS) Mas quando matámos e vimos correr o sangue vermelho dum povo negro: Acordámos! (é preciso que o poema que somos grite: ACORDÁ-MOS) E quando acordámos: Não vimos só que as gaivotas eram livres! – Renascemos! E ao renascer despertámos muitas gentes surdas e endurecidas! – Tu, camarada, deste-me a mim, poema, a cor do sangue que rasgou a alma dum soldado! – E eu, poema, feito de ti, sinto que se não foras tu... se não tivesse em mim as tuas carnes decepadas: Abril teria sido só Abril com trinta escravas madrugadas!
António CalvinhoIn “Trinta Facadas de Raiva”

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domingo, 31 de janeiro de 2010

Pel Caç Nat 60 Guiné 68/74 -P48: Afrase do dia.

"O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer." ( Albert Einstein )

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